
Eloqüente orador, Barack Obama é, sem dúvida, um político diferente. Não pela cor da pele ou por saber o verdadeiro valor da Internet como o veículo de mídia mais democrático jamais colocado à disposição das pessoas, mas por ser da estirpe dos grandes estadistas.
Feliz, ou infelizmente, Obama tem pela frente desafios monumentais e um imenso campo minado deixado por seu antecessor no governo do mundo. Para desmontar cada uma dessas armadilhas, vai precisar de muita habilidade e coragem.
Talvez a maior de todas as bombas (com uma energia atômica) seja o falido sistema financeiro internacional, que ameaça atirar o planeta em uma crise sem precedentes, mas há muitas outras pelo caminho. O importante é que Obama parece ser o homem certo para realizar as mudanças que o mundo necessita para finalmente entrar no século 21.
A postagem de ontem, dia da posse, do sempre lúcido José Saramago em seu blog, dá bem o tom da esperança que os homens de boa vontade depositam no NOVO presidente dos Estados Unidos:
Donde?
por José Samarago
Donde saiu este homem? Não peço que me digam onde nasceu, quem foram os seus pais, que estudos fez, que projecto de vida desenhou para si e para a sua família. Tudo isso mais ou menos o sabemos, tenho aí a sua autobiografia, livro sério e sincero, além de inteligentemente escrito. Quando pergunto donde saiu Barack Obama estou a manifestar a minha perplexidade por este tempo que vivemos, cínico, desesperançado, sombrio, terrível em mil dos seus aspectos, ter gerado uma pessoa (é um homem, podia ser uma mulher) que levanta a voz para falar de valores, de responsabilidade pessoal e colectiva, de respeito pelo trabalho, também pela memória daqueles que nos antecederam na vida. Estes conceitos que alguma vez foram o cimento da melhor convivência humana sofreram por muito tempo o desprezo dos poderosos, esses mesmos que, a partir de hoje (tenham-no por certo), vão vestir à pressa o novo figurino e clamar em todos os tons: “Eu também, eu também.” Barack Obama, no seu discurso, deu-nos razões (as razões) para que não nos deixemos enganar. O mundo pode ser melhor do que isto a que parecemos ter sido condenados. No fundo, o que Obama nos veio dizer é que outro mundo é possível. Muitos de nós já o vinhamos dizendo há muito. Talvez a ocasião seja boa para que tentemos pôr-nos de acordo sobre o modo e a maneira. Para começar.