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Transposição do Rio São Francisco – falta explicar o projeto

O Velho Chico em Curralinho, Sergipe - Foto Marcelo Lyra/Fundação Quinteto Violado


No último dia 20 de dezembro, o deputado federal Ciro Gomes publicou, através do jornal O Globo, uma carta aberta à atriz Letícia Sabatella, que se coloca francamente contrária ao projeto de Transposição do Rio São Francisco.

Na carta, Ciro Gomes afirma que o projeto “não prejudicará rigorosamente nenhuma pessoa, qualquer que seja o ponto de vista que se queira considerar.”

Segundo Ciro Gomes, “o rio São Francisco tem uma vazão média de 3.850 metros cúbicos por segundo (!) e sua vazão mínima é de 1.850 metros cúbicos por segundo (!).Isto mesmo, a cada segundo de relógio, o Rio despeja no mar este imenso volume de água.

O projeto de integração de bacia, equivocadamente chamado de transposição, pretende retirar do Rio no máximo 63 metros cúbicos por segundo. Na verdade, só se retirará este volume se o rio estiver botando uma cheia, o que acontece numa média de cada cinco anos. Este pequeno volume é suficiente para garantia do abastecimento humano de 12 milhões de pessoas.”

Porém, como diz a jornalista Dora Kramer, em artigo publicado ontem, 21 de dezembro, no jornal O Estado de São Paulo, “fora os engajados na causa e os interessados em tocar a obra, é de se perguntar se alguém mais no País sabe dizer se o projeto de transposição das águas do Rio São Francisco é bom, ruim ou muito antes pelo contrário.”

Num momento em que o planeta discute ações concretas para tentar reverter o processo de aquecimento global, o mínimo que se deve exigir de uma obra dessa dimensão, é que seja embasada em inequívoca responsabilidade ambiental, deixando paixões pessoais e interesses políticos e econômicos à parte.

Uma solução de consenso pode vir do Congresso, onde o deputado federal Fernando Gabeira defende que a transposição seja antecedida pela liberação de verbas para a revitalização do Rio São Francisco.

Ampliar o debate, com a participação de especialistas em questões ambientais, explicando melhor os prós e contras da transposição, sem dúvida irá contribuir, tanto para o aperfeiçoamento do projeto quanto para o fortalecimento da democracia no Brasil.

Transposição do Rio São Francisco - um projeto polêmico

Foz do Rio São Francisco - Foto: Sergio Fecuri - Embratur


O governo brasileiro garante que a principal finalidade do projeto de transposição do Rio São Francisco é dar água ao povo que tem sede, vida digna ao sertanejo que sofre as agruras da seca.

O Supremo Tribunal Federal deu parecer favorável à continuação das obras, mas o projeto é polêmico.

Dom Luiz Flávio Cappio, bispo da cidade de Barra, no sertão da Bahia, diz que a transposição do Rio São Francisco será um “golpe fatal à vida do rio”. Consequentemente, será também um golpe mortal ao povo ribeirinho e a todo aquele que depende do Velho Chico.

O bispo sugere que, ao invés da transposição, sejam construídos canais para desviar a água do São Francisco. Pede também a revitalização do rio, a construção de cisternas para armazenamento da água da chuva e a execução de mais de 500 projetos da Agência Nacional de Águas (ANA).

Segundo o teólogo Leonardo Boff, o debate no Supremo Tribunal Federal foi mal colocado. "A questão central não era de ecologia ambiental mas de ecologia social. Não se tratava apenas de decidir se o megaprojeto do governo implicava impactos ambientais danosos, coisa que o Ibama, numa decisão discutível, garantiu não haver.

O que se tratava, acima de tudo, era de ecologia social: a quem beneficia socialmente o faraonismo daquela projeto governamental? Aos sedentos do semi-árido ou ao agronegócio e às indústrias? Os dados falam por si: cerca de 75% da água se destina ao agronegócio, 20% às indústrias e somente 5% à população sedenta." Leia mais >